Quase todo jogo clássico tem uma história mais estranha do que a regra deixa adivinhar: o sudoku “japonês” nasceu nos Estados Unidos, o xeque-mate é uma expressão persa, o Paciência do Windows foi escrito por um estagiário. Este texto reúne a origem de dezesseis jogos que você encontra no TabulePlay, dos mais antigos aos mais novos. Onde a história é incerta ou disputada, dizemos isso — jogo antigo costuma ter mais lenda do que documento.
Jogos de tabuleiro com séculos de estrada
Xadrez
O antepassado mais antigo reconhecido do xadrez é o chaturanga, jogado na Índia por volta do século 6. O nome vem do sânscrito e alude aos quatro “ramos” de um exército indiano — infantaria, cavalaria, elefantes e carros —, que deram origem aos peões, cavalos, bispos e torres. O jogo passou pela Pérsia, onde virou shatranj (e onde nasceu a expressão xeque-mate, de shāh māt, algo como “o rei está indefeso”), atravessou o mundo islâmico e chegou à Europa por volta do ano 1000. A dama poderosa e o bispo de longo alcance que conhecemos hoje só aparecem no fim do século 15, na Espanha e na Itália; antes disso, a dama andava uma casa por vez, na diagonal.
Damas
Jogos em que as peças capturam saltando sobre as do adversário são muito antigos — o alquerque, praticado no Oriente Médio e no norte da África desde a Antiguidade, é um dos ancestrais. A tradição costuma situar o jogo de damas propriamente dito no sul da França, por volta do século 12, quando as regras do alquerque passaram para o tabuleiro de xadrez; a captura obrigatória e a dama que anda várias casas vieram séculos depois. Hoje existem dezenas de variantes. As damas internacionais usam um tabuleiro 10×10; as brasileiras — as do TabulePlay — usam o tabuleiro 8×8 com as regras internacionais: as peças comuns também capturam para trás e a dama anda quantas casas quiser.
Shogi
O shogi, o xadrez japonês, também descende do xadrez indiano. Peças de shogi encontradas no templo Kofuku-ji, em Nara, foram datadas de meados do século 11. O que o torna único entre os jogos da família do xadrez é a regra de soltar de volta no tabuleiro uma peça capturada, agora do seu lado: costuma-se situar essa regra por volta do século 16. É por isso que, no shogi, nenhuma peça sai de jogo de verdade — e é por isso que o jogo tem tantas jogadas possíveis em cada posição.
Dominó
Peças com pontos aparecem na China por volta dos séculos 12 e 13, mas o dominó como o conhecemos — 28 pedras, cada uma com duas metades numeradas de 0 a 6 — chegou à Europa no século 18, pela Itália e pela França. A origem do nome é incerta; uma explicação frequente o liga ao capuz preto de forro branco usado por religiosos (o domino), que lembraria as pedras de costas escuras e frente de marfim. No Brasil, virou parte da paisagem de bares, praças e calçadas.
Resta Um
Segundo a tradição, o resta um (peg solitaire, em inglês) foi inventado por um nobre francês preso na Bastilha. O registro mais antigo que se conhece é uma gravura de 1697 que mostra a princesa de Soubise com um tabuleiro do jogo, e em 1710 o filósofo e matemático Leibniz o comentou num texto. O tabuleiro em cruz de 33 casas é o “inglês”; existe também a versão europeia, com 37.
Dos cadernos para o tabuleiro: jogos de papel e lápis
Jogo da Velha
Um parente distante, o terni lapilli, era jogado no Império Romano: três pedrinhas por jogador, movidas depois de colocadas. O jogo da velha atual — X e O numa grade 3×3 — é tão simples que virou o primeiro problema de quem programa jogos: em 1952, o programa OXO, do pesquisador Alexander Douglas, rodava no computador EDSAC, da Universidade de Cambridge, e costuma ser citado como um dos primeiros videogames da história.
Batalha Naval
Nasceu como passatempo de papel e lápis, jogado na Europa por volta da Primeira Guerra Mundial. Ganhou edições impressas em blocos nos anos 1930 e virou clássico mundial em 1967, quando a Milton Bradley lançou a versão em caixa, com navios de plástico e pinos vermelhos e brancos para marcar acertos e águas.
Palavras Cruzadas
A primeira cruzadinha publicada saiu no suplemento de domingo do jornal New York World, em 21 de dezembro de 1913, criada pelo jornalista Arthur Wynne, num formato de losango. Chamava-se word-cross (“cruza-palavras”); conta-se que um erro de composição, pouco depois, inverteu o nome para cross-word. Nos anos 1920, o passatempo já era mania nos Estados Unidos.
Caça-Palavras
Foi publicado pela primeira vez em 1968, num jornal de Norman, no estado americano de Oklahoma (o Selenby Digest), e a criação é atribuída a Norman E. Gibat. Pegou rápido: cabe em qualquer canto de página e não precisa de dicionário — só de olhos atentos.
Sudoku
Apesar do nome japonês, o antepassado direto do sudoku nasceu nos Estados Unidos: o Number Place, publicado pela revista Dell em 1979 e atribuído ao arquiteto aposentado Howard Garns. Foi no Japão, em 1984, que a editora Nikoli o rebatizou de sudoku e o popularizou. A explosão mundial veio em 2004, quando o jornal britânico The Times passou a publicá-lo, com grades geradas por um programa do neozelandês Wayne Gould.
Um clássico vitoriano
Reversi
O Reversi foi publicado na Inglaterra em 1883; dois inventores, Lewis Waterman e John Mollett, disputaram a autoria. A versão com a posição inicial fixa, que ganhou o nome de Othello — uma alusão à peça de Shakespeare sobre rivalidade —, foi lançada no Japão em 1971 por Goro Hasegawa. Curiosidade: o Reversi já vinha instalado nas primeiras versões do Windows, ainda nos anos 1980.
Nascidos (ou ressuscitados) no computador
Paciência
O Paciência do Windows — o Klondike — veio com o Windows 3.0, em 1990. Foi escrito por Wes Cherry, então estagiário da Microsoft, e costuma-se contar que uma das razões para incluí-lo era ensinar os usuários a arrastar e soltar com o mouse. O solitário de cartas em si já existia havia séculos, jogado com baralhos de verdade.
Campo Minado
Jogos de descobrir minas numa grade existem em computadores desde os anos 1980, mas o Campo Minado que todo mundo conhece ganhou o mundo com o Windows 3.1, em 1992. Ele e o Paciência ficaram na memória de quem usou o Windows nos anos 1990 e 2000 — e até hoje é difícil achar quem nunca tenha aberto uma casinha e torcido pra não ser uma mina.
Cobrinha
O ancestral é o Blockade, um arcade de 1976, em que dois jogadores deixavam rastros na tela e tentavam fazer o adversário bater. A versão para um jogador, com a cobra que cresce ao comer, virou febre mundial em 1997, quando o Snake veio instalado nos celulares Nokia.
2048
Foi criado em março de 2014 pelo desenvolvedor italiano Gabriele Cirulli, em poucos dias, como um experimento pessoal, e publicado como código aberto. Inspirou-se em jogos parecidos, como o 1024 e o Threes, e virou febre em questão de dias — tanto que apareceram versões e variações de todo tipo.
Termo
O Termo é a versão brasileira de um fenômeno de 2021: o Wordle, criado pelo engenheiro Josh Wardle para jogar com a companheira e aberto ao público em outubro daquele ano; o jornal The New York Times o comprou em janeiro de 2022. Também em 2022, o desenvolvedor Fernando Serboncini lançou o Termo, com palavras em português e a mesma ideia: uma palavra por dia, igual para todo mundo.
O que essas histórias têm em comum
Olhando o conjunto, dá pra notar um padrão. Os jogos que duram têm regras que cabem em poucas linhas e uma profundidade que não acaba — foi assim que o xadrez atravessou quase quinze séculos e o Termo conquistou um país em meses. Eles também mudam pelo caminho: as damas viraram dezenas de variantes, o Reversi virou Othello, o solitário de cartas foi parar no computador. E muitos nascem de um jeito improvável — uma revista, um caderno, um experimento de fim de semana.
Cada jogo citado aqui tem regras, dicas e um pouco mais de história na própria página. Escolha um e comece.